Artigo da professora
Rosalina Burgos, nascida e criada no Itaim Paulista, e atualmente
lecionando Geografia na UniSantana. Sua reflexão sobre o passado distante,
o passado recente e a atualidade desta parte da Zona Leste merece
ser vista por todos que gostam da História local
No
mês de maio de 2002, o Itaim Paulista comemorou o 22º ano de sua
emancipação administrativa, ou seja, que se tornou um Distrito Administrativo
independente de São Miguel Paulista. Mas neste texto vamos falar
de um Itaim Paulista que tem em sua história patrimônios que datam
do século XVII, e de uma ocupação urbana com mais de 50 anos.
Itaim Paulista na periferia urbana de São Paulo: mais de 50 anos
de história
A ocupação urbana do Itaim Paulista começou por volta da década
de 50. Naquela época, o uso destas terras era ainda muito rural,
com chácaras de descanso e hortas de famílias japonesas, húngaras,
italianas, entre outros.
O atual centro do Itaim Paulista, naquela época, tinha poucas casas
e o principal meio de transporte já era o trem. A Av. Marechal Tito
era denominada Rodovia São Paulo-Rio e ligava os dois Estados.
Uns dos responsáveis pela grande ocupação do Itaim Paulista, principalmente
nas décadas de 50 até os anos 80, foram os trabalhadores da Industria
Nitro-Química Brasileira (S. Miguel Pta), das indústrias e fábricas
da região do Brás e do ABC, em sua maioria migrantes nordestinos,
além daqueles do interior de São Paulo, que até hoje vivem no Itaim
Paulista e São Miguel.
Também foram responsáveis os empresários (especuladores imobiliários)
que lotearam as terras do Itaim Paulista, ganhando muito dinheiro
vendendo terrenos sem qualquer infra-estrutura. Faltava tudo: água,
luz, asfalto, escola, etc., problemas enfrentados até hoje. Os trabalhadores
tiveram que construir suas próprias casas e lutar por melhorias
nas Associações de Moradores e Comunidades de Base.
Outro responsável pela ocupação do Itaim Paulista foi o Estado,
os nossos representantes políticos. O governo foi responsável por
permitir que os loteamentos fossem ocupados sem nenhum planejamento,
enriquecendo os empresários e deixando a população trabalhadora
em condições péssimas de vida.
A população, os empresários e o Estado foram todos, de alguma forma,
responsáveis pela “cara”, pelo espaço urbano que o Itaim Paulista
tem hoje.
Mas foi a população quem sentiu na pele as dificuldades de viver
na periferia urbana, longe dos centros comerciais e de emprego,
enfrentando transportes precários.
O número de habitantes do Itaim Paulista cresceu mais rápido do
que o número de escolas, de creches, de postos de saúde, etc. Hoje
são cerca de 400.000 habitantes numa área de aproximadamente 12
Km².
Neste contexto, foram sendo extintas as áreas verdes, restando poucos
espaços para o lazer, como é o caso do Parque Municipal Santa Amélia
no Jardim das Oliveiras.
Das poucas áreas verdes ainda existentes no Itaim Paulista destacamos
uma muito especial: a chamada Chácara Biacica.
Chácara Biaciaca: um Itaim Paulista com mais de 400 anos
A “Chácara Biacica”, onde se encontra a Capela Biacica é uma das
únicas áreas verdes que ainda existem no Itaim Paulista. Às margens
do Rio Tietê, a Chácara permanece como um registro do passado, do
que foram, um dia, as terras do Itaim Paulista.
Mas se a existência desta Chácara no Itaim Paulista é um marco de
sua história, por outro lado é um exemplo do descaso com relação
ao Patrimônio Histórico na periferia de São Paulo. O referido patrimônio
trata-se de uma Capela, construída de taipa de pilão no século XVII.
O Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, atendendo à solicitação
do então proprietário da chácara, encaminhou uma comissão de visita
para registrar a existência da Capela. No relatório de visita, que
data de 20 de julho de 1925, encontramos relatos de sua origem:
“A paragem de Biacica, até então devoluta e deshabitada, foi concedida
por sesmaria em 1611, a Domingos de Góes, também sesmeiro, (...)
terrenos estes que em 1621 já se achavam em poder dos frades carmelitanos
de São Paulo, segundo declaração divulgada por essa ordem religiosa
em 1869 (...).”
A partir do ano de 1925, a Capela passou pelas mãos de alguns proprietários
de terras do Itaim Paulista. A Capela manteve-se intacta até o ano
de 1935, quando Léven Vampré, seu então proprietário, tornou-a parte
da casa sede de sua propriedade. É também deste período a escultura
de uma índia em bronze, denominada “Bartira”, de autoria de João
Batista Ferri. Nela está inscrita o ano de 1936. O escritor e poeta
Mário de Andrade após visitar Capela a denominou de Edifício Coleção
:
“Se é certo que se tem a impressão de estar em casa libertinosamente
de campo e ao mesmo tempo numa capela, o riquíssimo material reunido
é tão bonito que não chega a se verificar o desacerto da mistura.
Quase agrada, e as revoltas são mais de raciocínio do que de sensação”.
Outros empresários tiveram a posse da Chácara Biacica até que a
mesma foi tombada pelo Departamento de Patrimônio Histórico, da
Prefeitura de São Paulo, em 10 de novembro de 1994, mantendo-se
ainda hoje como propriedade particular.
A chácara nos traz a sensação de um passado distante, como se estivéssemos
entrando no “túnel do tempo”, mas também a triste constatação do
abandono e esquecimento. Algumas crianças atravessam a cerca da
Chácara para brincar nos campos de várzea, ainda existentes...
No documento que tomba a Chácara Biacica e sua capela, ressaltou-se
a importância ambiental da Chácara dos Fontouras, localizada às
margens do Rio Tietê (...). É fácil observar a gravidade das ameaças
que pairam sobre o cinturão meândrico do Rio Tietê, justamente onde
se acha situado o bem (...). Constitui um dos raros locais daquela
parte da cidade provida de massa arbórea de certa expressão (...)
peculiaridade essa que levou a cogitar sua desapropriação desde
ao menos 1988, com o objetivo de transformá-lo numa área de lazer
para os moradores das imediações, tão carentes desse tipo de equipamento.
Também do ponto de vista histórico-arquitetônico, e mais especificamente,
artístico e documental (...), a sede da Chácara dos Fontouras constitui
curiosa simbiose arquitetônica, onde se acham associados os restos
de uma antiga capela de taipa, com características planimétricas
típicas da mais pura tradição luso-brasileira, e uma residência
semi-urbana, construída na década de 30, com típicas linhas arquitetônicas
neocoloniais.(...)
Enfim, não faltam motivos para preservarmos este Patrimônio Histórico,
herança de um passado já distante e que em nossos dias nos ensina
e traz a consciência das transformações da história e do espaço
onde vivemos.
Texto de Rosalina Burgos – Geógrafa
rosalina_burgos@hotmail.com
Fonte:
Burgos, Rosalina. O processo de (des)organização espacial do Itaim
Paulista no contexto da expansão urbana da cidade de São Paulo (2ª
metade do século XX).Trabalho de Graduação Individual apresentado
ao Depto. de Geografia – FFLCH/USP, sob orientação da Profª Dra.
Amália Inês G. Lemos. São Paulo, 2001
Comissão do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Biacica
In Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Volume
XXIII, 1925. Pp. 322 - 323
Não sabemos como, e quando, o escritor conheceu a Capela. Tivemos
acesso a este depoimento na Reportagem de O Estado de São Paulo,
Prefeitura tomba capela do século XVII, de 15/11/1994.